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30/01/2019

Eliminação da hepatite C exige mais esforços do Brasil e do mundo

Estudo avalia impacto de diferentes intervenções na meta da OMS de tirar a doença da lista de maiores ameaças à saúde pública global até 2030

Brasil e mundo precisam redobrar seus esforços se quiserem cumprir a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminar a hepatite C até 2030, reduzindo em 80% a incidência e em 65% as mortes decorrentes da doença frente aos níveis registrados em 2015 para que ela deixe de ser uma das maiores ameaças à saúde pública do planeta. O alerta é de estudo que avaliou os impactos de diferentes intervenções no curso da epidemia até o fim do século, publicado nesta segunda-feira no prestigiado periódico médico-científico “The Lancet”. Segundo os pesquisadores, caso todas medidas recomendadas sejam adotadas, seria possível evitar 15,1 milhões de novos casos e 1,5 milhão de mortes por cirrose ou câncer de fígado provocados pela hepatite C em todo mundo até 2030.
No estudo, os cientistas liderados por Alastair Heffernan, do Imperial College London, no Reino Unido, traçaram seis cenários para a epidemia em 190 países. Em dois deles, há a manutenção das políticas de prevenção, diagnóstico e tratamento da doença observados em cada um deles em 2015, com a diferença apenas de fornecimento ou não dos novos medicamentos antivirais de ação direta (DAAs, na sigla em inglês) desenvolvidos nos últimos anos que em muito elevaram as taxas de cura, enquanto nos quatro restantes eles calcularam os efeitos cumulativos de quatro pacotes de ações: projetos de segurança hematológica, com testagem mais ampla de doações de sangue para transfusão e melhores práticas no uso de agulhas e injeções, principais veículos de transmissão atuais; criação de programas de redução de danos para pessoas que usam drogas injetáveis; prescrição imediata dos DAAs a todos diagnosticados, independente do estágio de evolução da doença; e expansão do diagnóstico com exames em massa da população.
De acordo com os cálculos dos pesquisadores, só o primeiro pacote de intervenções, com uma consequente redução em 95% do risco de infecção pela população em geral, levaria a uma queda em 58% o número de novos casos de hepatite C em 2030 frente ao esperado no cenário de manutenção das políticas atuais com acesso aos novos medicamentos. Já a implantação de programas de redução de danos para usuários de drogas atingindo 40% desta população e baixando seu risco de infecção em 75% diminuiria o número de casos em 7% adicionais no mesmo ano, num total cumulativo de 14,1 milhões a menos até 2030.
Mas como a hepatite C é uma doença “silenciosa”, com um longo período de incubação antes que sintomas mais graves comecem a se manifestar, estes dois conjuntos de medidas pouco afetariam a mortalidade pela doença na próxima década, lembram os pesquisadores. Neste ponto, destacam, os novos medicamentos têm papel chave, com a ampliação de seu acesso a todos doentes conhecidos evitando 640 mil mortes até 2030.
Isoladamente, porém, esta última intervenção terá pouco efeitosobre as taxas de incidência da doença, ressaltam os cientistas. Assim, é aqui que entra a quarta medida recomendada por eles, de ampliação dos diagnósticos. De acordo com os cálculos dos pesquisadores, se os programas de testagem identificarem 90% dos doentes, serão evitadas mais cerca de 950 mil novas infecções até 2030, totalizando 15,1 milhões casos evitados no período. E número de mortes também diminuiria em quantidade similar, somando 1,5 milhão de vidas salvas.
- Eliminar a hepatite C é uma meta extremamente desafiadora que requer intervenções na prevenção e diagnóstico – resume Heffernan. - Mas em todo planeta estas medidas estão muito aquém dos níveis que estimamos serem necessários para terem um grande impacto na epidemia. Precisamos de mais pesquisas de como melhorar isso em todos os aspectos, e mais recursos, se quisermos atingir esta meta.
Segundo especialistas, para o Brasil os maiores desafios entre as iniciativas elencadas pelos pesquisadores no “Lancet” estão na ampliação do acesso aos tratamentos mais modernos e eficazes contra a hepatite C e dos diagnósticos. No primeiro caso, a concessão pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) de patente do medicamento sofosbuvir à multinacional farmacêutica Gilead em setembro do ano passado, impedindo a fabricação de genérico por um consórcio entre empresas nacionais e o laboratório público Farmanguinhos/Fiocruz, pode ser um empecilho.
- Temos dois problemas centrais: remédios bons, porém caros, o que dificulta o acesso universal ao tratamento; e um baixo número de diagnosticados, o que pode ser resolvido com campanhas pelo diagnóstico e políticas públicas de saúde que consigam achar essas pessoas que têm hepatite C e ainda nem sabem – destaca Pedro Villardi, coordenador do Grupo de Trabalho em Propriedade Intelectual (GTPI) da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia). - No resto, temos uma situação de conformidade com a maioria das indicações. Drogas injetáveis não são um grande problema brasileiro, todo sangue doado no país é tratado e as normas nacionais exigem uso de material hospitalar descartável.
Com relação aos tratamentos mais modernos, Villardi lembra que diretriz de março de 2018 do Ministério da Saúde permite o acesso a eles em qualquer estágio da doença, fazendo do custo principal obstáculo na sua universalização.
- O Brasil hoje já oferece melhores tratamentos. Nosso maior problema é o preço - diz. - Os medicamentos dão conta de tratar todo mundo, mas eles são caros porque usam componentes patenteados, seja o sofosbuvir, seja outras combinações usadas na composição do genérico. Por exemplo, no último pregão (em 16 de janeiro) o genérico não conseguiu apresentar valor mais barato do que a versão da Gilead porque depende de um outro medicamento (o daclastavir) que compõe a combinação e que é também patenteado no Brasil. Esse remédio nos custou algo em torno de US$ 1.400, enquanto o custo de produção gira em torno de US$ 200. No contexto global, o Brasil tem um dos melhores preços das Américas. Nos EUA, por exemplo, o tratamento custa US$ 80 mil em média. Mas na análise global tem países onde ele é muito mais barato, como Egito e Índia.
Fonte: O Globo